quinta-feira, 5 de março de 2009

“LLUVIA” DE YERBABUENA

por Tatiana Guedes

Nunca fui aquela típica fã da Eva Yerbabuena. Sempre gostei mais do flamenco cigano. Para mim, no que tangia ao baile, guitarra e cante, era flamenco cigano até morrer. Até sexta-feira passada, vinte e sete de fevereiro, Festival de Jerez, quando assisti “Lluvia”, um dos shows de flamenco mais emocionantes e bem concebidos que até hoje nao tinha visto. Eu, que de exageros sou, agora sou Yerbabuena até morrer. Fã? Mais que fã, o seguinte disso.

Não é à toa que essa bailaora, bailarina, idealizadora, criadora, pensadora (e muito mais...) se destaca dentro do seu mundo e de outros mundos também. Sua proposta era estreiar no Festival de Jerez um espetáculo sobre a solidão e o desamor, como a própria autora comenta, revelar por completo a si mesma.
Lluvia nace de un día gris de pura melancolia.Quiero explorar mis inicios, incomodando quizá un poco (porque es muy fácil definir a la persona que tienes en frente y no eres tú) a todos aquellos que creen conocerme. Mis orígenes son el amor en la más pura soledad. Quiero decir con esto que no creo en el amor maravilloso, sino en el aquel que hace conocer parte de tu esencia que ni siquiera sabias que existían...
E para quem pensou que se ia encontrar com muita água sobre o cenário (porque era óbvio pensar assim...) se sorpreendeu mais uma vez. Nenhuma só gota caiu no cenário. A “Lluvia” era algo mais profundo e não tanto como o significante e o significado.

Autêntico, sensitivo, revelador, desmoronador. Definitivamente não foi mais do mesmo sobre a solidão e o desamor. A platéia, ao final, em prantos, mimetizados com a artista ao som de “Se nos rompió el amor” por bulerías. Eu chorei, o que estava ao meu lado chorou, e o da frente também. Afinal não somos todos aqueles que um dia choramos em um quarto escuro? Sim, estávamos tristes, sozinhos e mal amados.

Ao terminar o show me dou conta das vantagens de morar em Andaluzia, sinto o ar de Jerez de la Frontera e para terminar com chave de diamante a noite, vou a tomar “una cervecita” e comer “una tapita”.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre Baile Flamenco e Academias em Sevilha

por Tatiana Guedes

Acabo de ler um livro cujo título é "El baile flamenco: una aproximación histórica", de José Luis Navarro e Eulália Pablo. É um livro bastante simples, mas que em linhas gerais vai contando um pouco da história do baile flamenco, das influências mais marcantes na sua concepção e como todas essas misturas culturais e riqueza histórica que eram presentes na terra andaluza e espanhola desde antes do século XV foram ajudando a construir o que conhecemos hoje como a dança flamenca.
Sabe-se que a dança flamenca adquire uma forma mais definida e começa a ser reconhecida como expressão artística importante no século XIX com os "Cafés Cantantes" que abriram em toda Espanha e que eram uma versão espanhola dos Cafés Chantants franceses. Entretanto, muito antes desse momento histórico o baile começava em embrião a receber influências dos que chegavam dos portos de Cádiz como os escravos africanos, quando Sevilha era importante centro de tráfico de escravos, e também daqueles como os ciganos, por exemplo, que com suas "trupes familiares" ficavam por um tempo para tentar ganhar dinheiro com apresentações em casas de senhores ricos da época. Ou seja, além das danças típicas, festeiras sempre presentes no cotidiano das festas espanholas, tanto negros como ciganos influenciaram nos movimentos corporais da dança flamenca.
Segundo o livro, os negros trouxeram danças dos seus países africanos como o Manguidoy ou a Zarabamda que acrescentaram ao baile flamenco movimentos de cadeira, cintura e tronco. Existem documentos sobre festas de escravos que datam de 1464 em Jerez de la Frontera e final do século XVI em Sevilha. Quando enfim no século XIX chega o Tango, conhecido na época com Tango de Negros, que chega de Cuba e se torna sucesso em toda Espanha.
Já os ciganos, existem documentos sobre sua presença em Andaluzia desde o século XV. Eles acrescentaram à dança flamenca tipos de percussão como os pandeiros, tamboris, e principalmente desenvolveram uma maneira de dançar muito enfocada no sapateado, nos giros e na expressão facial. Os palos "Zapateado", "Seguidillas" (que hoje em dia são as Sevilhanas) e o "Romance", por exemplo, são estilos que os ciganos desenvolveram e ficaram associados como bailes de ciganos na época.
O que pretendo com esse resumo histórico sobre a dança flamenca é tentar mostrar que de alguma maneira Sevilha foi um ateliê que permitiu a criação de diferentes estilos dentro dessa dança e congregou diversos grupos étnicos, os quais influenciaram de maneira direta a forma de dançar flamenco atualmente. E aí começamos com as academias de flamenco de Sevilha.
Chegar em Sevilha e escolher aonde estudar flamenco é tarefa difícil e ao mesmo tempo prazerosa porque na cidade existem uma infinidade de bons professores com estilos e didáticas completamente diferentes entre si. Uns são mais "modernosos", outros ciganos, com um tipo de flamenco mais racial, com remates e chamadas fortes, existem os que misturam estilos, e aqueles que pedem para exagerar no movimento de cadeiras e aqueles que proíbem sua utilização, uns com braços mais redondos e outros com braços mais esticados, e assim por diante. De repente o aluno bailaor pode ficar confundido em um momento e não saber muito bem qual estilo seguir ou qual estilo seria o mais acertado.
No entanto, penso que o caminho para escolher uma academia ou professor para aprender a dança flamenca nada mais é que o caminho do sentimento, daquilo que você sente que é a verdade dentro do flamenco ou aquele estilo pelo qual você quer expressar o seu eu e o que está ao seu redor. É uma falácia ficar discutindo (como muitos fazem) sobre qual é o flamenco verdadeiro ou divagando sobre "flamenco puro" ou "flamenco fusão", isso só são caixinhas que fazem talvez o interlocutor dessas insensatezes sentir-se mais seguro.
Todos os estilos (se bem executados) estão corretos e todos são muito flamencos. Penso obviamente que é de bom tom tentar conseguir um conhecimento mais amplo da dança flamenca, não saber somente de um estilo ou de algumas tendências de baile. Ter consciência da ampla gama de estilos e da dificuldade que cada um possui é um acertado passo para depois escolher o próprio e desenvolvê-lo. Mas diante de toda essa história de misturas e de pessoas que pisaram aqui e fizeram do baile uma dança rica em códigos e elementos, só podemos ter muito respeito e reverência a todos os profissionais dessa arte, É chegar em Sevilha, buscar uma escola e aproveitar ao máximo.
Para exemplificar, sugiro dois vídeos de duas bailaoras-professoras bastante conhecidas aqui em Sevilha e que tem estilos muito diferentes entre si. Juana Amaya, bailaora cigana, de Morón de la Frontera (província de Sevilha) e Isabel Bayón, ex- aluna de Matilde Coral e ex-bailarina da Companhia Andaluza de Flamenco, de Sevilha capital. Com esses dois exemplos se pode visualizar as influências étnicas nos seus movimentos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Desde o começo

Por Tatiana Guedes

Fiquei pensando sobre o quê poderia escrever para inaugurar o blog Flamenco Desde Sevilla. Então, simplesmente me dei conta que moro aqui nessa cidade andaluza há não poucos cinco anos e que devagarzinho, sem pressa, poderia contar as tantas historias que experimentei com o flamenco aqui além de dar dicas para quem, como eu, um dia se viciou nessa arte.

Antes de qualquer coisa, queria compartilhar a dimensão da escolha de vir morar aqui do outro lado do oceano.

A minha historia com o flamenco começou em Brasília de maneira despretensiosa. Um dia fui ao cinema assistir ao filme “Zorro”, com Antonio Banderas e Catherine Zeta Jones, no qual aparece uma cena dos dois dançando (que na época pensava inocentemente que se tratava de dança flamenca) e umas semanas depois li uma reportagem no Correio Braziliense sobre o benefício físico de praticar alguma dança, e uma delas era a tal dança flamenca. Eu que sempre dancei na minha vida, passei dez anos da minha existência indo a classes de balé clássico, e depois me aventurei mais três anos pelo balé moderno, já estava me entediando de fazer musculação e hidroginástica, então, fui buscar um lugar para provar o flamenco. Encontrei uma professora em uma academia de dança de salão e lá foi onde tudo começou.

Quem podia imaginar que estaria hoje em território andaluz submergida por essa cultura que é tão próxima e tão distante ao mesmo tempo? Reflito sobre isso porque pode acontecer com qualquer um e de fato acontece.

Aqui em Sevilha, Granada, Jerez, Madri, existem muitíssimas mulheres e homens de não sei quantas nacionalidades, que como eu um dia nunca pensaram que iam estar dançando flamenco todos os dias, escutando flamenco todos os dias, vendo flamenco todos os dias, conhecendo os artistas flamencos mais renomados de perto, freqüentando o mesmo bar que Miguel Poveda ou Farruquito etc. Porque é isso que acontece aqui, pelo menos em Sevilha. É impressionante que regularmente caminhando pela rua, de repente você escuta alguém dentro de um bar cantando, tocando ou bailando. É uma magia, uma experiência única e enriquecedora em todos os sentidos e que até mesmo faz com que o flamenco tome uma ou outra dimensão na vida.

Tem pessoas que vem pra cá e se identificam tanto com esse estilo de vida (porque deixo claro que flamenco é estilo de vida aqui por essas bandas, é definitivamente uma maneira de viver), que no final das contas viram profissionais dessa arte e decidem fazer da Espanha a sua nova casa e tem outras pessoas que, ao contrário, pouco a pouco vão vendo que o flamenco não é tudo na sua vida e assim essa arte vai ocupando outros espaços, vai acalmando, vai diminuindo de importância.

É talvez difícil entender esses dois processos que acontecem com os estrangeiros aqui se o leitor nunca teve um contato mais intensivo e in loco com o flamenco, porque conhecer o flamenco apenas no Brasil, é conhecer talvez a parte estereotipada da arte, é não conhecer a dimensão profunda, enraizada que tem o flamenco para o seu povo andaluz. Dar uma “pataítas de bulerías” aqui é como sambar numa roda de samba no Brasil, simples, relaxado, para brincar um pouco com a música e se divertir na noite. O flamenco está dentro da alma aqui, está na voz rouca do sotaque andaluz, está nos braços fortes das “chiquillas andaluzas”, está na palma da mão, no compás, como dizem.

Viver aqui se torna um processo reflexivo, refletir se vale a pena estar mais tempo, quando é hora de ir, ou se é hora de ficar de vez, surgem os problemas financeiros, conseguir viver do flamenco? Ou trabalhar de garçonete para pagar as classes de flamenco? Muitas vezes submergidos ao extremo, esquecemos de escutar nossa bossa nova, nosso rock, esquecemos do grande Raul Seixas, do Toquinho, do Vila Lobos, da Maria Creuza, e de muitas outras coisas que nos faziam felizes antes do flamenco.

Mas bom, não estou dizendo de maneira alguma que devemos esquecer o flamenco e deixar de aproveitar essa riqueza que está aqui na península ibérica, também não estou dizendo que não se deve encarar o flamenco como uma profissão e conseqüentemente se entregar por completo. Quero só comentar que quando você decide fazer essa viagem, pegar as malas rumo ao aeroporto e decolar em busca de sonhos e prazeres flamencos, tenha certeza que mudará sua vida pra sempre e, por isso, aconselho que desembarque aqui de corpo e alma abertos e com o coração pronto para viver uma aventura profunda e de repente você vai se dar conta que já vive aqui há anos e o flamenco já faz parte de você.